24.11.06

Duda Bandit na tarde dos pandas

I
"descobri que é muito perigoso aplicar à conduta idéias literárias"
(adolfo bioy casares)

Eu abro a guarda ainda... depois de tanta porrada eu ainda abro. A gente sente falta desse gosto de sangue, fica mordendo a mucosa da boca para sentir o sabor de carne viva... autofagia, o canibalismo possível.


Mas ela não quis me bater... db, o vira-latas da estepe, pensou que não ia ligar, hoje não ligo... Há muito deixei de considerar opiniões desfavoráveis à minha pessoa, quem tem ego apaixonado tem passe livre... dizem que sou um machista convicto, mas sou um machistazinho adorável... abro portas, mando flores, canto Nelson Gonçalves no ouvidinho... e adoro pagar contas, porra, qual o problema nisso tudo? O que me salva é meu orgulho peculiar, regionalizado. De onde venho, coronelismo tardio, as pessoas negociavam olhando pra baixo e não assinavam papel, os vícios eram sanados na bala... esse olhar pra baixo é que é foda, desde já aviso: orgulho é olhar pra baixo e calcular o tamanho da queda.

Ela lia meus textos, mandava e-mails desancando o meu machismo e elogiando a minha vitalidade e impulsividade... eu ficava todo prosa. Pegou meu msn e duas tecladas depois nos encontramos em um bar estranho de Jardim da Penha, juro que sempre passei por aquela rua e não tinha reparado nele. Voltei depois, inúmeras vezes, na esperança sempre frustrada de encontrá-la.

A gente falava sobre o mundo, as coisas, literatura, trabalho. Quando o papo caminhava em direção a nós mesmos tudo ficava subtendido nas entrelinhas. Até hoje nem imagino onde ela morava ou que veio fazer na minha vida. Pelo jeito de escrever, econômico, mas usando palavras amplificadas, eu deduzi que se tratava de uma escritora, possivelmente poeta (eles se entregam fácil). E era mesmo. Como ninguém bate ponto fazendo poesia, Wanusa era free-lance de várias ONGs nas quais ela militava ou era simpatizante, dúzias de organizações ecológicas ou feministas pelo planeta. A idade eu chutei pela aparência e pela bagagem cultural, entre 27 e 30 anos. Usava óculos de aros grossos e pouco baton. Sempre começava um papo como se fosse abrir um seminário importante para tratar de estratégias para proteção dos pandas da China, bicho enigmático em sua vida. Coisa mais sem graça, eu pensava, proteger um bicho que vai sumir do planeta por falta de apetite sexual. Mandar uns coelhinhos pra lá em um programa de intercambio com os ursos me pareceu um caminho viável. Ela riu, nesse dia riu.

Era vegetariana e no nosso último encontro passou a criticar meu apetite por carne. Eu disse que um leão não teria remorsos em me devorar num almoço de domingo. Ela falou de necessidade, cadeia alimentar, crueldade, ausência de maldade, etc... Eu disse que concordava em parte, crueldade existia sempre, a única diferença é o sarcasmo, pois a gente mata o bicho e depois desenha a espécie feliz na embalagem sugerindo o consumo... os olhinhos castanhos dela sorriram, acho que maquinaram um novo postulado para a causa dos carnívoros éticos.

Mas nem tudo eram questões ambientais e feministas. Logo no primeiro encontro o vestidinho mal intencionado, relativamente curto, justo na cintura, largo e esvoaçante nas coxas. Um laço prendia as alças no pescoço, era só puxar uma das pontas... e vi que ela estava desconfortável, que aquilo não era o tipo de roupa que costumava usar. Uma concessão em nome do Bandit? Adorei. Juro que pensei até em armação, tenho cultivado inimizades no meio acadêmico, na galera GLS e no mundo feminista. A possibilidade de trote não era paranóia. Essa galera usa métodos da máfia chinesa aperfeiçoados pela camorra. Ficou até mais excitante depois disso, sentia-me um cara digno da cama de Mata Hari... um privilegiado, eu era singular, filho dileto do outono: Wanusa, um presente da estação, me olhava com óculos de aros grossos e coxas morenas.

Revelei Wanusa como se despetalasse uma rosa... mas primeiro suprimi os espinhos, humanizei-me em direção a uma paz que só eu podia me dar, embora lançasse mão de amenidades presentes em seu sorriso, seu caráter e o som de suas palavras... penso que quase entrei em transe escutando ela falar sobre os guaxinins e seus hábitos extravagantes, nas misteriosas árvores que crescem na Amazônia e no woman power, um mundo sendo harmonizado pela feminilização das relações...

Mas quando entro em transe um olho fica aberto, concordava com tudo me utilizando de um sorriso tolerante que só eu sei fazer, elogiei os guaxinins e seus hábitos de higiene, citei uma árvore amazônica que ela até então desconhecia, e falei de Heliogabalo, o anarquista coroado que pirou os romanos colocando mulheres no senado, versão de Antonin Artaud.

Wanusa iluminou-se em um sorriso aprendido na lide com religiões orientais. Descobriu, enfim, um coração batendo no peito de Duda Bandit... eu não estava pra brincadeira aquele dia mesmo, se fosse preciso eu diria até que distribuía rosas no trabalho em oito de março – as flores acompanhadas de um pequeno panfleto de minha autoria explicando a origem da heróica data.

A tarde no motel foi especial, eu quis fazer com carinho, devagar... ela, apesar de preferir as trepadas selvagens (fazia sentido), topou e sincronizamos nossos corpos como se transássemos em um imenso bote king size solto no mar calmo... o ar preguiçoso passeando pelas narinas e se misturando aos gemidos e som da música mais psicodélica dos mutantes.

Pensei de repente no que minha vida poderia ter sido... no que poderia ser. É fácil apagar um passado, reescrever. Os historiadores fazem isso o tempo todo, cada fato é recontado em cada tempo, de acordo com interesses próprios de quem reconta nessa época... e eu? Por que não poderia também reinventar um passado?

Mas não ia reescrever nada nesse dia, trouxe minha mente de volta ao corpo usado por e para Wanusa, deixei de lado meu passadozinho imbecil e irrisório. Eu estava me divertindo e isso é tão raro que tenho que ir até o fim, preciso gastar todas as possibilidades de bem estar, quiçá felicidade. A entressafra desta cultura é longa e cheia de intempéries.


II


Wanusa sumiu uma semana. Eu não tinha seu telefone e por isso mandava e-mails que foram cruelmente ignorados. Ligou uma tarde, perguntou se eu queria vê-la... pode ser, respondi abafando na garganta algo como: só se for agora, mina. O mesmo bar em Jardim da Penha. Saímos depois, mas eu já não conseguia fingir tanto interesse na pesca predatória de baleias, numa associação para gatos desamparados e uma exposição fotográfica sobre a mulher trabalhadora...

Wanusa percebeu isso, mas ignorou as possibilidades de meu querer, não vislumbrou o infinito de meu desejo. Deu vontade de queimar meu escritos, livrar-me dos preconceitinhos babacas, enfim, tava disposto a sugar um espírito de barata, não ser nem contra nem a favor de nada, fugir de tudo quanto é tipo de polêmica, seria capaz, talvez, de me assassinar para tê-la em meus braços. Eu estava dando silêncio e amor em troca de sua alma e corpo. O sexo foi bom nesse dia, aconteceu em minha cama. Levei Wanusa para meu mundo. Um erro.


III


Na terceira vez em que nos encontramos fizemos um sexo lascado, ruim... falamos (ela falava) depois sobre os direitos das mulheres na China, me recomendou o novo livro de Anchee Min. Disse também que ia receber o Tao. China, não é lá que vivem os Pandas? Foi tudo que perguntei.

Dormimos e amanheci deitado de lado, sentindo um rosto macio e cabelos colados em minhas costas... evitei até respirar para não perder essa ternura. Devo ter ficado muito tempo assim, minha cabeça deu muitas voltas em torno de coisas que não consigo esquecer... estava sereno apesar das lembranças, contei nos dedos as mulheres que me trouxeram esta serenidade e precisei de menos de uma mão nessa matemática insensata. Adormeci de novo e Wanusa foi embora, sem me acordar. Interfonei pro porteiro, um pouco pra saber que horas ela desceu, um pouco, quem sabe, pra ter certeza de sua existência... o aroma de mulher amanhecida, os vestígios de sexo na cama, a glande em leve ardência e até os encontros anteriores podiam ser produtos do devaneio de qualquer esquizofrênico de primeiro grau, um louco estagiário... bom, uma ligação para a portaria também.


IV


Na última vez foi isso que já falei, ela criticou meu apetite por carne. Estávamos no meu apartamento e ela começou a ler os títulos dos livros na estante, parou, retirou o Mulheres, de Bukowski, folheou e guardou; abriu um François Truffaut, O homem que amava mulheres, versão em livro do filme. Pegou um Shopenhauer, A vontade de amar, caiu justo onde o velho dizia que “a injustiça é o defeito capital da mulher”. Aí foi demais... Perguntou que graça eu via naqueles livros (?). A mesma que vejo em um bife mal passado, respondi.

Machista, ela atacou. Concordei, mas destaquei que eu era um machistazinho adorável, tentei abraçar, agarrei sua cintura, mas ela me repeliu e negou... negava, não, eu não era um machistazinho adorável, era só machista... Tentei perverter o conceito, desanquei a trajetória de Louise Michel na comuna, fiz apologia ao fim do sutiã, afirmando que adorava peitinhos libertos, e com isso faturei em cima de uma das páginas mais comoventes da briga da mulherada em duzentos anos. Mas não estava satisfeito ainda, eu precisava de um gran finale, disse que tinha que ter existido Chiquinha Gonzaga, Leila Dinis, Pagu e Rita Lee para hoje as meninas rebolarem no baile funk rindo gostosamente ao serem chamadas de cachorra... foi letal. Ela preparou a mão, eu abri a guarda... e nada. Foi embora, bateu foi a porta. Maldita, ela sabia que seria pior assim... eu adorava Louise Michel, droga. No mais, na estante também tinha Márcia Denser, Hilda Hilst, Ana Cristina Cesar... até Safo tinha, porra. Sei lá, acho que não calculei o tamanho da queda e agora no chão eu procurava o orgulho que perdi na hora em que tirei os olhos dele.

Eu mandei uma mensagem offline... uma semana e nada. Abria o msn e ficava feito idiota esperando ela entrar. Deve ter me bloqueado, a infeliz. Saía desolado da frente do computador procurando bebida e o seu sorriso engajado nas bocas de garçonetes. Deixei de freqüentar até as putinhas por um tempo.

E foi isso. Wanusa sumiu. Deve ter recebido o Tao e caiu fora, tá lá na China pixando muros contra a opressão feminina e a favor dos pandas, por que não? Os pandas, de uma coisa serviu tudo isso: acho que hoje compreendo melhor os pandas e suas idiossincrasias.



13.11.06

Não pare na pista, Bandit

“Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...”
(M. Quintana)


Zumbi... vampiro? Dá no mesmo. A perda tem dessas coisas, via de mão dupla. Trás dor e depois liberdade. A gente trafega nessa via sinistra, faz opções. Seja numa praia de madrugada, o frio cortando a alma e você não sente; seja na estrada, um caminho pavimentado de escolhas e renúncias. Eu tinha vinte e dois anos.

Procurava nas estantes da livraria algo que dissesse o que eu sentia. Revirando a seção de literatura estrangeira peguei A Metamorfose, de Kafka, e uma voz suave atrás de mim perguntou se “Esse livro é bom?”. Respondi que gostava muito dele, era a história de um cara que acorda um dia e percebe que se transformou em um inseto. Ela falou: “Acontece todos os dias, o mundo tá meio louco, né?” – rimos, achei a menina muito espirituosa em dizer aquilo. Ruas vazias, tarde nublada de sábado, saímos dali para tomar café expresso. A luz da lanchonete refletia em seus cabelos avermelhados. Fogo.

Fizemos promessas, juramos amor eterno, essas coisas. Quando dei pela situação sua mala estava na minha porta, ela sorria e pedia "coloca no quarto, mô." A vida passou a rolar assim, eu trabalhava e ela meditava no tapete da sala .

Três meses depois mudamos de minha quitinete no centro para um modesto bangalô em frente à praia de Jacaraípe, lá no final da orla. Fui contra no início, não queria pegar dois ônibus e ficar em pé uma hora e meia pra chegar ao trabalho, mas ela me convenceu durante o banho.

Chegava cansado e encontrava Anna na varanda com aqueles vestidos de cores suaves, cheiro de sabonete, me esperando; Corria, abraçava e dizia no meu ouvido coisas adoráveis. Eu era mesmo um babaca adorável.

Anna tinha mania de ficar pelada em casa usando minhas camisas sociais. Era sempre a camisa preferida entre as preferidas, aberta, mostrando os seios e o púbis encarnado quando andava. Tinha um talento sobrenatural para descobrir a que eu pensava em vestir no dia seguinte. Usava e escondia. Quando eu ia sair não encontrava mais. Brigava, mas ela só me olhava. Mandava escolher todas as minhas camisas que gostasse e jogar tudo no armário dela. Ao menos ia parar de me desfalcar na hora em que mais precisava. Ela sorria e me abraçava, roçava o nariz na minha barba. Depois ficava caladinha no meu colo. Eu mandava todas as camisas favoritas do mundo à merda.

Final de semana a gente ficava na cama até tarde, café na bandeja e Caetano Veloso. Anna dizia “Vou ser sua pra sempre.” Eu advertia que mentir era feio. Uma vez pegou uma bisnaga de queijo cremoso e rabiscou no seio direito: L U I S. Tem um monte de nome assim por aí, disse. Então tentou escrever E D U A R D O no outro, mas como o nome era comprido se contentou com D U D A, contornando o mamilo. Desse dia em diante nunca mais me chamou de Luis Eduardo ou Luis, sempre de Duda. Fui batizado pela segunda vez, dessa vez com queijo cremoso e bico de seio.

Eu trabalhava e Anna lia os livros, vivia perguntando sobre escritores, filosofia. No dia em que resolvemos começar um jardim pediu “Quero aquela flor da Ofélia, dá para conseguir?”. Expliquei que o nenúfar era uma flor aquática, precisava de um lago. “Ah! Que pena.” – resignou-se com aquele rostinho de menina.

Anna lia os livros e mudava. Continuou adolescente e jovial com Shakespeare, tornou-se impulsiva lendo Goethe, afetada em Oscar Wilde. Com Camus tomou gosto por longas caminhadas na praia e já não me esperava no final da tarde.

Uma galera freak começou a fazer ponto na praia, em frente ao bangalô. Anna fumava um baseado com eles vez em quando, e falava, falava... Eu via da varanda e tinha receio de me aproximar. Na única vez em que o fiz ela se calou. Um cabeludo com cara de fome mantinha a conversa, falava de anarco-individualismo, autonomia do indivíduo, Van Gogh e quadrinhos. O cara puxando fumo na praia com o dinheiro da mãe pensionista do Estado e falando de autonomia do indivíduo... aquilo me enojava. Anarquismo individualista sem conhecer Max Stirner, autonomia do indivíduo sem Emma Goldman, Van Gogh sem Artaud.... um dia joguei tudo na cara de Anna, ela chorava e me acusava de arrogante, presunçoso... deixei ela falar tudo, respirei, encarei firme e contei que devia minha vida ao orgulho, sem ele teria sucumbido a um cotidiano patético e insignificante, uma vidinha corrompida, feita de afagos mútuos. O orgulho havia me livrado das expressões "foda", "maneiro" e "demais" na saída do Metrópolis depois de um filme de Bergman. Eu não tinha me traído, ainda não. Ela quis saber do meu afeto, do meu querer... Anna, eu dizia, preciso de você porque pouca coisa é sólida... acho que você é livro, eu escrevi você e você me escreve... só isso... Ela pegou a minha mão e colocou embaixo do vestido, dentro da calcinha, segurou firme lá e perguntou se aquilo era página... eu tentei beijá-la, mas ela não abriu a boca, joguei seu corpo em cima da mesa e penetrei a gruta árida. Anna me olhava, me olhou até o fim, e eu podia ver nos seus olhos o reflexo de um homem no lago... eu mesmo.

Nosso afastamento foi crescendo. Tentava me reaproximar dela, mas, porra, quanto mais eu tentava pior ficava. Anna começou a sair sem rumo, sumia dois dias e depois voltava como se tivesse ido à padaria. Pirei, comprei um revólver 38 e ameaçava atrocidades, não ia mais pro escritório, mandei meu chefe tomar no rabo. Foi minha primeira demissão. Ela pouco se importava com tudo, chego mesmo a dizer que se divertia com meu circo de horrores.

Chegou o dia em que esperei semanas e nada. Ela não voltou. Não ligou, nem um recado. Mas ainda tinha esperanças. Aguardava sempre na varanda com a arma carregada, até tarde. Engatilhava e desengatilhava. Estava tão perdido que até a possibilidade do suicídio pareceu um caminho intrincado, não seria capaz de encontrar a estrada da morte sozinho, mesmo olhando um mapa rodoviário.

Depois da vigília eu andava na praia de madrugada com o revólver na mão, voltava ao amanhecer ou dormia na areia. O ar faltava, o inferno fatalmente fecharia as portas e minha temporada se faria permanente nesse dia.

A redenção veio de rajada. O vento derrubou as peças do tabuleiro. Saí do Xeque por acaso e a partida recomeçou lenta, sem a droga do cronômetro. Senti frio de novo e o dia já despontava no horizonte, um riscado de fogo na linha do oceano.

Caminhei procurando um lugar para enterrar a arma, tinha me custado uma grana e eu poderia precisar dela um dia. Enterrei ao lado de uma castanheira, marquei o local e voltei pra casa, tinha que devolver o imóvel, o dono queria de volta. Comi um ovo cozido, contei quanto dinheiro me restava, enfiei no bolso, arrumei minha mochila e fui embora. Na saída virei pro bangalô e dei uma banana. Era agosto e segui pelas ruas vazias em direção ao ponto de ônibus. O vento zunia no meu ouvido e me lembrava uma verdade que martelava minha cabeça: Eu agora era imortal.

8.11.06

Duda Bandit, o hematófago

Tem gente que coleciona fetos... outros fazem yoga. Alguns, de tão azarados, tentam suicídio, tentam... Bandit gosta de motos japonesas, lê L.F. Celline e faz farras com putinhas... mas essa noite não. Precisa de caça... nada de comércio, minas à escolha no catálogo...

Seis andares em cima da rua sete... Bandit na janela do apartamento olha quem passa... as pernas parecem tão longas no passo... vontade de descer, entrar no Bimbo e tomar uma cerveja no balcão, manjar os tipos... quem sabe aquela moça? É terça-feira. A rua logo vai ficar vazia, é preciso ir depressa.

Não. Uma pilha de processos na mesa, tanto papo para conseguir trabalhar em casa e furar logo na segunda semana?

Os habitantes da noite... fauna escassa em Vitória. Bandit olha a pilha de papéis, os códigos do lado, doutrinas – esses penalistas certamente não trepavam – pensa com convicção. Senta, digita algumas palavras... pára. Recosta, bota as mãos na nuca e lembra de quando as coisas pareciam mais simples, o que deu errado, droga? O telefone toca. Atende e uma voz feminina, rouca, provavelmente bêbada: Rafael?

– Não, querida, você errou o telefone do anjo, mas se você quiser....

Ouve o pipipipipi... imóvel e patético por cinco segundos e volta à janela. Os guindastes do porto vistos por uma fresta entre dois prédios, imaginou-se levantado por um deles e depois, numa falha operacional imperdoável, sendo despejado no mar. O burburinho das vozes na rua, seis andares abaixo, faziam a solidão começar a doer. Vampiros são assim, fazem tudo por solidão, só pra desejar companhia depois...

Foi até a estante e entre empoeirados livros de Marx e Hanna Arend achou os poemas de cárcere do Ho Chi Minh, pensou em jogar um deles na petição: escolheu aquele em que Ho Chi Minh caminha pelas montanhas e os tigres não o incomodam, mas na planície é preso por outro homem... não fazia muito sentido na peça processual, mas, porra, pouca coisa faz sentido nos tribunais.

O tédio comia pelas bordas... a imagem de cada móvel na sala trazia desconforto, teve nostalgia de amor passado. Sentiu na cabeça os cafunés de Leidinha, ouviu a voz de Roberta, lembrou da indiferença de Dolores e se divertiu com o sarcasmo de Reyna... Não veio à mente nenhuma trepada, o que evidenciava que mais um pouco de tempo ali sozinho estaria fatalmente fodido, melancólico e fodido.

Todas as mulheres quando foram embora disseram coisas semelhantes, o que ele mais ouviu foi “nunca mais, cara”. Algumas não disseram nada, as melhores. Teve uma que pinchou palavrões na parede... foi lindo.

O tédio.... pode saber, boto o dedo na cara de qualquer padre, teólogo, filósofo, sacana, aproveitador, bispo da Universal, etc... digo que deus e o diabo vão manter o jogo equilibrado eternamente, com ligeira vantagem para o inferno... Porra, o tédio é o contraponto, o inimigo. No fundo o capeta é um aliado do divino na luta contra um mundo plano, enfastiado... Bandit me ensinou. Por isso ele não se encrencava com nenhuma religião, desde que ela ficasse na dela e o deixasse na dele. Pronto. Descer ou não descer à rua deixou de ser uma questão pessoal para virar um questionamento filosófico sobre a natureza do divino... Caralho! O único Divino com quem Bandit simpatizava era um mulato cheio de ginga que cumpria um restinho de pena no Instituto de Readaptação Social – IRS, na Glória.

Tédio, trabalho, tédio... Perguntou-se de repente: O que diria Henry Miller nessa situação?... nada, sairia simplesmente em busca de boceta.

Pouco depois estava no elevador... saiu, sentiu o ar da noite, úmido pela chuvisco que cessava.. respirou fundo... sentiu falta de gente, mas só para ver... andou, Ceará fechado, Nakano vazio... uma mesa com conhecidos, todos homens... esquivou-se... detestava a companhia masculina.... Suportava apenas um, o Gafanhoto, porque tinha a capacidade de sonhar sem ser babão.

Bimbo. Meio cheio, meio vazio... procurou por Nina, a garçonete dos bons conselhos... de folga... homens, apenas homens no boteco. Resta a cerveja e pescar o papo alheio... futebol, trabalho, reformas, política... foi na Jukebox e procurou Rauzito... o som começa e muita gente reclama da quebra da hegemonia de Bruno & Marrone no espaço. Dá de ombros, termina a cerveja, a música, paga a conta e volta pra rua. Pensa... pegar a moto e sair está fora de planos, chuva fina e indecisa desde o entardecer... vai andando, tentando descobrir coisas novas na arquitetura da cidade. Inútil. Bandit é capaz de descrever todos os casarões antigos, monumentos, praças... cinco anos por essas ruas passam rápido, deixam fotografias na memória, algumas serenas, outras gravadas com muita dor.

Os bares do porto estão fechados, já é tarde. Entra na Princesa Isabel, putinhas concentradas, recebe propostas de sexo em promoção: hoje não, minha linda! Não era desse jeito que Bandit queria mergulhar na carne essa noite. Nem teria saído de casa se assim fosse, chamaria uma putinha universitária delivery... hoje não. Prossegue e chega no parque, um bar aberto ainda... pequeno. Gente em torno do balcão circular, de modo que os clientes se encaram como uma mesa redonda, um seminário, parecendo essas frescuras de universidade. Senta no meio. Conhaque. Vários homens, duas bichas, uma coroa meio passada... lembrava Gertrude Stein retratada por Picasso, porém, vestia cores mais alegres. Como é difícil cobiçar nesta cidade, pensou. Fim de madrugada, não a desprezaria como possível vítima, aceitaria um jantar menos farto – tudo que quer é aliviar esse troço que dá no peito, uma agonia que dali parte para o pau, sobe à cabeça... contrai as mãos... um corpo para dissolver-se e remontar-se em novas bases... renovar-se a cada trepada... sexo... daí a palavra comer boceta, a cultura popular nunca é tola, comer, alimentar-se... devorar... fazer-se daquela matéria... dali saímos... às origens.... Drácula recupera suas forças na Romênia...

Gertrude, a do boteco, com duas bichas... um dos veados falava alto... mostrava seus conhecimentos de cinema italiano... De Cicca, Pontecorvo, Antonioni, Bertolucci, falava mal de Fellini... Bandit entra no papo, comenta que gosta de E la nave va, ressalta que Amarcord trás recordações absurdamente lindas de um passado não vivido – a bichona falante mira Bantid e morde os lábios, a bichinha calada baixa os olhos... Gertrude sorri, com poucos dentes –, de qualquer forma, prossegue Bandit, o filme de Fellini que mais me identifico é Os boas-vidas... Bichona fica indignada por perder o centro de atenções e de ser questionada. Gertrude senta do lado e pergunta o nome do cara: Duda Bandit...

Bandido, ladrão?

Não, é que ando de moto, uma suzuki bandit... Duda tem um monte por aí, recebi o apelido pela motoca... distinção.

Bichona experimenta uma mudança de tática... não quer perder sua platéia de bêbados... Nanni Morett, o que Bandit pensava do péssimo cinema feito por Nanni Morett? Autobiográfico e levemente massificado, incisivo... me agrada profundamente, responde o hematófago. Gertrude pôs-se a brincar com seu joelho, os dedos subiam pelas cochas, e desciam... o pau reagia... Gertrude bêbada lembrava as mulheres de Bukowski em seu memorável livro a elas dedicado.

Bichona partiu para os americanos de raízes italianas, elogiou Tarantino... Bandit, do contra, jogava na sua cara, rugindo, que Tarantino atualmente era um bocó deslumbrado com efeitos especiais, uma criancinha mimada que ganhou moral e fortuna com seus bons filmes para torrar tudo agora em películas idiotas. A bicha franziu a sobracelha, lacrimejou e pediu para Bandit perdoar o Quentin, e o fez também prometer que iria ver o próximo filme do cara... Não desiste de Tarantino, Bandit – derreteu-se, lânguido...

Sim, não desistirei, por você. Bichona ficou satisfeita. A platéia se acalmou. Gertrude, a pretexto de cochichar no seu ouvido, metia a língua lá dentro... Bandit foi gostando... uma ereção cavalar... Vamos, meu bem – disse Gertrude... Bandit deu um beijo no rosto do veado para amenizar as altercações e mandou Gertrude esperar lá fora, enquanto ia no banheiro... Bichinha disse as primeiras palavras da noite, quase que suspirando: adoooro Pasolini.... Bichona fingiu não ouvir, somente recomendava a Gertrude que cuidasse bem do boff.

Bandit pegou o corredor em direção ao banheiro e notou que Bichinha vinha atrás... Bandit desabotoou a calça, abriu o zíper, quando ia direcionar o pau no mictório ela pediu para segurar enquanto ele mijava... respondeu que não, iria travar... ela disse que não travaria, que tinha técnicas apuradas... Bichinha pegou o pau do vampiro, apontou na direção da louça, sua técnica era imitar o barulho de água corrente com a boca.... Olhava Bandit, o pau e ria... ria... e imitava uma torneira aberta.... quando a mijada acabou o veadinho já ia colocar o cacete na boca... quase abocanhou... Bandit aplicou-lhe um violento soco e Bichinha foi parar no canto do banheiro, recolhida... amedrontada... Ele foi em direção à porta, mas parou....pensou, porra, mas que mijada boa... voltou-se para o viadinho... caminhou lento em sua direção, pensava só na porra da mijada boa... parou em frente a Bichinha, ainda caída, pegou seu queixo com doçura, levantou até a altura dos quadris, Bichinha ficou de joelhos, ele tirou o pau e ofereceu dizendo: Por Pasolini, baby... capricha!

6.11.06

Karem...

Clima tenso, tipo colômbia... preciso desenrolar umas coisas e só volto a postar no sábado... preciso viver para dar vida ao texto. Se você sente a falta de Marcelas, Isas, Karlas, Biancas, Rayssas, Cíntias, Gabis, Sheilas, Micheles, Paolas, Kellys, Bruninhas, o meu parceiro Jorge Ferreira pode te apresentar a Karem, a putinha de olhos doces... Imperdível...

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