13.10.07

BLANCHE

Piazzola, a embriaguez de destilados e um tango desperdiçado... “música contemporânea de Buenos Aires”, me dizia Blanche. Referia-se às esquivas que Astor Piazzola realizava para calar os puristas de San Telmo. Eu não estava interessado em ritmos latinos, mesmo que com colorido europeu e jazz, mas era tudo recalque de uma alminha brasileira inquieta... Tudo que eu queria era “discutir a relação”, deu na cabeça de repente, foi, é remotamente possível, inveja... inveja de casais que percorrem juntos corredores de supermercado e andam de mãos dadas em volta do laguinho no parque... “olha a tartaruguinha, amor”... Inveja pressupõe ódio, e como me falta interesse e sobra preguiça para tanto (ódio exige dedicação), não, acho que não foi inveja... mas queria discutir a relação, não importava que pouco nos víamos e que ela praticamente debutava em minha cama, e naquele dia trouxe a porra do CD do Piazzola.

Blanche é atriz, diretora de teatro, dramaturga e resolveu dar pra mim... e eu querendo discutir a relação... sempre a falta de prática, de tato... “Eu tenho saído com outras mulheres, você se importa?”, provoquei. Ela tragou o cigarro mentolado, uma febre entre as mulheres perigosas, perigo potencializado se elas estão só de calcinha deitadas na cama e o cinzeiro ao lado do encarte da porra do CD do Piazzola. Lançou a fumaça ao som de “la muerte del angel”, me olhou, riu cínica e respondeu que não tinha problema, que “tá tudo bem”, afinal de contas, “eu também tenho saído com outras mulheres”... rolou na cama e ficou de bruços olhando o teto. Eu tenho trinta anos e sou um carinha que disfarça bem os preconceitos, mas vi que qualquer possibilidade de discutir a relação tinha sido frustrada por caso fortuito...

Eu deitei de bruços ao lado dela e apreciava o Quinteto Biyuya em “la ressurreicion del angel”... “minha namorada”, ela disse depois de um longo silêncio, “chega na quarta. Fica uma semana. Nesse tempo sou só dela. Mas depois a gente se vê de novo, te acho um moço muito bonzinho”. Eu mudei de assunto, dizia que era bacana quando o Astor tocava sanfona, ela riu de mim e disse que aquilo era um bandoneón, me explicou as diferenças enquanto eu fingia prestar atenção, por isso não entendi nada, é uma estratégia que uso desde a escola primária, sou um moço muito bonzinho... eu falei que me amarrava na voz de Carlos Gardel e nas letras dos tangos, ela me respondeu que não gostava de tango, só de música contemporânea. Pensei na namorada de Blanche, como ela devia ser, o que fazia da vida, mas não falei nada... Blanche brincava com os calos do dorso de minha mão, herança do boxe.

Perguntei se ela concordava que a traição era um traço genético que algumas pessoas herdam de sociedades antepassadas, os homens infiéis possuem ancestrais poligâmicos, já as mulheres infiéis ancestrais poliândricos... falei tudo com ar professoral para afastar a possibilidade dela achar que era deboche, queria dar um ar científico à coisa... existiam alguns antropólogos do meu lado, não sabia o nome deles, muito menos lido, mas eles certamente não negligenciariam um tema central por excelência. Blanche fez uma pausa, parecia que nem tinha escutado a pergunta, depois confessou nunca ter pensado no assunto, que era um ponto de vista interessante, e que ela certamente vinha de descendências misturadas, mescla dos dois sistemas...

Eu já perdia por dois a zero, pensei noutra estratégia, podia buscar na prosa a solução surrealista da escrita automática, eu ia falar o que desse na cabeça sem me preocupar com quem ouvia, mas tava de saco cheio de André Breton e sua quadrilha (de novo os recalques de uma alminha brasileira inquieta).

Blanche me olhou, deu um sorriso lindo. Perguntou por que eu estava tão calado. Eu continuei calado, retribui o sorriso, dei um beijo suave em sua boca e fui na cozinha beber água. No caminho pensei em Bandoneóns, em milongas, tragédias e Jorge Luís Borges... depois decidi banir da minha vida todas as mulheres que lidam com teatro e curtem “música contemporânea”.

17 Comments:

Blogger Hanne Mendes said...

"(...)inveja de casais que percorrem juntos corredores de supermercado e andam de mãos dadas em volta do laguinho no parque... “olha a tartaruguinha, amor”...

Amei todo o texto, rapaz, e achei essa partezinha [ em especial] um charme!
Bom vê-lo por aqui novamente.

Beijo.

5:39 PM  
Blogger Juliana said...

Adorei!

7:18 AM  
Blogger Maria Cecília said...

Talvez seja mesmo literatura...homens que querem discutir a relação, ainda que embriagados de Carlos Gardel, tragédias e Borges. Deuuuuuuuuuus! nunca cruzei com um desses. Todos os homens da minha vida disseram que penso muito e, depois, "isso não é hora de discutir a relação! Cecília, vc vai querer fazer isso agora?"...Mas talvez isso deva ser mesmo coisa de alguém que sabe que as almas são feitas em tamanho P, M e G...

8:12 AM  
Blogger mississipi said...

Blanche... a única que conheço é aquela de uma rua chamada pecado ou de um bonde chamado desejo.. e tenho tão pouco de Stanley Kowalski em mim...

4:13 PM  
Blogger Jorge Ferreira said...

aparte o texto...Piazolla 'e ducaralho!

7:53 PM  
Blogger Paulo Bono said...

chamava a namorada de blanche pra cair no tango. e sou desses textos.
grande abraço, Bandit

11:54 AM  
Anonymous Vinícius Piedade said...

bom como só música contemporãnea da Argentina consegue ser.


Adorei degustar esse texto em meio ao sol quente demais, quente de doer, de agredir, mais quente do que deveria!

ABRAÇÃOAOA MEU CARO AMIGO.

1:17 PM  
Blogger Soraya Martinnelly said...

Que radical, heim. Resolveu banir pra sempre as mulheres de teatro? Logo ele com sua poligamia....Sei.

1:33 PM  
Blogger Soraya Martinnelly said...

Ah....Não considere muito meu comentário. De ressaca....Mas adorei, tá?

1:36 PM  
Blogger Érico Perim said...

Também fiquei com pena das mulheres que lidam com teatro e curtem "música contemporânea". Vão perder um rapaz tão bonzinho...

Eu adoro ler os seus textos, com esse monte de sinceridade masculina.

Abraço!

8:50 PM  
Blogger Stephanie said...

eu, que evito rapazes bonzinhos porque desprezo diminutivos, fico me perguntando o quão brochante é para um sujeito ouvir isso

realmente é caso de banir esta mulher.hahahahahahah

9:37 AM  
Anonymous Wiskow said...

Bandoneóns, em milongas, tragédias e Jorge Luís Borges... depois decidi banir da minha vida todas as mulheres que lidam com teatro e curtem “música contemporânea”.
hehe, Bom, muito bom.
abração

1:26 PM  
Blogger Tatiani said...

Dizer que gostei pareceria pouco pra mim ...
Dizer que há desejo de tornar-me a personagem da questão, alias, das questões.. dos textos, independente se ganha ou se ganha um pé ao final ....

Beijo enorme.

7:22 AM  
Blogger Duda Bandit said...

Hanne, sempre feliz de sentir vc perto... beijos.

Juliana, quem bom que gostou... beijão.

Cecília, adorei essa coisa de alma... ternura.

Mississipi, as tragédias contemporãneas me atraem... mas não sei escrever sobre elas. abração.

Jorge, eu sei... abração.

Bono, sou dos seus tb, abraço... espalitando.

Vini, pirata querido, saudade... vc é meu irmão, cara.

Soraya, eu perdoo fácil... beijos.

Érico, elas devem estar felizes... abração, amigo... a gente se esbarra pela ilha.

Stephanie, é por aí... beijos.

Wiskow, valeu, hermano... vindo de ti... abração.

Tatiani, o pé no final sempre é uma possibilidade... eu levei tantos. beijos.

10:15 AM  
Anonymous Anônimo said...

Por favor, não leve a sério essa tal de stephanie. Mesmo fraco,o café é sempre uma delícia.

4:02 PM  
Blogger Cinthia Belonia said...

Belíssimo conto, Saulo.
Gosto da forma realista como escreve no coloquial. Mas tbm de forma literária, já que é literatura, né?

Às vezes é bom parar de escrever por um tempo. Assim renovamos a nossa criatividade já um tanto gasta.

Beijos

11:50 AM  
Anonymous Blanche said...

E ela saíu da ficção e entrou pra realidade, ao contrário de Hannas, Hibares ou Belles, Claras e outras que não merecem a citação, muito menos um conto.

8:45 PM  

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