Cigarro é uma solidão que sai fumaça

Aprendi a ter prazeres assim, acredito, com a minha motocicleta. De tanto testar o motor observando o escapamento, passei a sentir êxtase na fumaça expulsa de suas explosões, restos de combustão, cheiro de combustível queimado, potência... e no fim a fumaça, um resíduo sublime disso tudo, um gozo.
Tô quase assim, consumindo gasolina, soltando fumaça pelas ventas, tenho vontade de potência, vontade, muita vontade.
(a gasolina pela cerveja, gim tônica ou vodca)
Soy Motorizado, pero fodido: um carburador que suga muito combustível engasga e rende pouco. Fumaça, bielas fora de ritmo. Tanto álcool pra nada... só fumaça e uma nostalgia fodida de injeção eletrônica.
Naufrago, à deriva, uma ilha deserta... e deserto. O motor morre e neste dia não vou trabalhar, é o segundo essa quinzena... Sempre se dá um jeito, sempre há uma viagem inadiável, sempre há um parente na enfermaria, um recém-nascido pra visitar, o que seria da humanidade sem nossos motivos de força maior?
Gosto tanto de motores em V, barulhentos, dispostos, anárquicos, mas sempre fui um cara horizontal. Eu vibro menos. Eu me adapto ao asfalto. Sexta visto roupas com motivos indianos e como vegetais no Sol da Terra. Aos sábados, de camisa pólo, boné e Ray Ban, traço uma picanha no Espeto de Prata.
A coisa não é solenemente culinária, embora tenha muito disso. À noite não acredito nem em deuses que dançam, mas ao amanhecer sou capaz de ver a aura das pessoas. Às vezes tem um monte de sofrimento nisso, outras sobra apenas ironia - tem diversão também, um pouco.
Um dia eu calo, noutro ataco: "... só posso concluir que sua tese está equivocada, meu caro, só é possível aceitar as considerações de Kierkegaard sobre o cristianismo se aceitarmos um sistema de valores schopenhaueriano”.
(Fumaça...)
Tem trouxa que cai, os mais cabaços. E revisam pontos obscuros de suas teses. Eu gargalho cínico em meus cilindros, dentro do motor, mas mantenho meu olhar sério, digno e raivoso de poeta incompreendido, de fumante tardio, de máquina.
Eu blefo, senhores. Pouco me importam as cartas, o combustível, o jogo, o ex adverso, ele também um blefador.
Uma vez deixei de comprar um Baudelaire para provar absinto. O livro ficou na livraria, mas anotei um versinho na mão para memorizar depois enquanto a bebida descansava no copo:
Hypocrite lecteur, - mon semblable, - mon frère !
(hipócrita leitor,-meu igual,-meu irmão!)
Tô quase assim, consumindo gasolina, soltando fumaça pelas ventas, tenho vontade de potência, vontade, muita vontade.
(a gasolina pela cerveja, gim tônica ou vodca)
Soy Motorizado, pero fodido: um carburador que suga muito combustível engasga e rende pouco. Fumaça, bielas fora de ritmo. Tanto álcool pra nada... só fumaça e uma nostalgia fodida de injeção eletrônica.
Naufrago, à deriva, uma ilha deserta... e deserto. O motor morre e neste dia não vou trabalhar, é o segundo essa quinzena... Sempre se dá um jeito, sempre há uma viagem inadiável, sempre há um parente na enfermaria, um recém-nascido pra visitar, o que seria da humanidade sem nossos motivos de força maior?
Gosto tanto de motores em V, barulhentos, dispostos, anárquicos, mas sempre fui um cara horizontal. Eu vibro menos. Eu me adapto ao asfalto. Sexta visto roupas com motivos indianos e como vegetais no Sol da Terra. Aos sábados, de camisa pólo, boné e Ray Ban, traço uma picanha no Espeto de Prata.
A coisa não é solenemente culinária, embora tenha muito disso. À noite não acredito nem em deuses que dançam, mas ao amanhecer sou capaz de ver a aura das pessoas. Às vezes tem um monte de sofrimento nisso, outras sobra apenas ironia - tem diversão também, um pouco.
Um dia eu calo, noutro ataco: "... só posso concluir que sua tese está equivocada, meu caro, só é possível aceitar as considerações de Kierkegaard sobre o cristianismo se aceitarmos um sistema de valores schopenhaueriano”.
(Fumaça...)
Tem trouxa que cai, os mais cabaços. E revisam pontos obscuros de suas teses. Eu gargalho cínico em meus cilindros, dentro do motor, mas mantenho meu olhar sério, digno e raivoso de poeta incompreendido, de fumante tardio, de máquina.
Eu blefo, senhores. Pouco me importam as cartas, o combustível, o jogo, o ex adverso, ele também um blefador.
Uma vez deixei de comprar um Baudelaire para provar absinto. O livro ficou na livraria, mas anotei um versinho na mão para memorizar depois enquanto a bebida descansava no copo:
Hypocrite lecteur, - mon semblable, - mon frère !
(hipócrita leitor,-meu igual,-meu irmão!)